LÓGICA PARA INGLÊS VER

A lei brasileira diz que o único objetivo da política econômica é combater a inflação, e que o Banco Central é o executor desta política. Vai daí, o próprio Banco Central definiu um modelo teórico para guiar suas decisões práticas. Problema resolvido? Não, problema começado.

Este modelo teórico contém uma particular equação que recebeu o apelido de Curva de Phillips. Trata-se, na realidade, de uma curiosidade mercadológica, já que o objetivo do pesquisador que dá o nome à curva, o inglês Phillips, era mostrar que existe uma relação inversa entre o aumento do preço de venda e o estoque do produto.

A idéia é a seguinte: suponha que sua loja vende casca de ipê-roxo e que, de repente, aparecem muitos novos clientes, digamos porque alguém espalhou o boato de que casca de ipê-roxo cura câncer. Você habilmente percebe que pode aumentar o preço de venda. O que o inglês Phillips queria provar é que, se o seu estoque de casca for pequeno, o aumento de preço que você faz será grande. Mas, se o estoque for grande, você aumentará o preço só um pouquinho. Lógico, não parece? Na origem era só isso.

É possível ir além e imaginar a situação em que a disponibilidade de casca de ipê-roxo, e também a de todos os outros produtos, é grande. Neste caso, quando a procura cresce, digamos porque aumentou a renda do trabalhador, os preços de todas as mercadorias aumentam só um pouquinho e a inflação é baixa. Ou seja, se a renda do consumidor brasileiro está crescendo e ele está procurando comprar mais de tudo, quanto maior a produção nacional, melhor para o Brasil. Lógico, não é?

O problema é que a teoria do Banco Central adota este princípio apenas no caso do trabalho e, pior do que isso, inverte o raciocínio. Nesta teoria, quanto maior a disponibilidade de trabalhadores ociosos, menor a reivindicação salarial e, portanto, menos inflação. Assim, quanto mais desempregados houver, melhor será para o Brasil. O que lá se pensa é que, pagando um salário baixo, as empresas não precisam aumentar o preço de venda. É por isso que, na prática, o Banco Central acha que, para reduzir a inflação, é necessário aumentar o desemprego. Nesta linha, não importa que o trabalhador-consumidor fique sem dinheiro para comprar e que as empresas quebrem.

Ora, para as empresas terem mais produção e o Brasil ter menos inflação, é necessário ter mais emprego. Mas, de acordo com a teoria que adotou, o Banco Central pensa o contrário. Lá, prevalece a noção de que menos inflação não se consegue com mais produção, mas sim com menos emprego. A invocação à pesquisa científica de Phillips é só retórica, é só ilusionismo, é só para inglês ver.


Artigo originalmente publicado pelo jornal Indústria e Comércio de Curitiba em 20 de julho de 2004.

Gerson Lima