BOLSA FAMÍLIA OU BOLSA JUROS


Está rolando na Internet esse cartazinho, certamente feito por alguma pessoa bem intencionada. Entretanto, ele serve muito mais para que a classe média não perceba quem está de fato arrancando o couro dela.

A informação equivocada transmitida por esse cartaz me dá uma boa oportunidade para explicar como a ideologia popular ajuda os economistas de banco a manterem a ideologia deles e enfiar a mão no seu bolso sem que você perceba. O cartazinho que eles mostram para a população o tempo todo é esse outro:

Eu penso, logo sou um ser humano, social e político. Mas não sou lulista, sou economista keynesiano preocupado com o emprego e a renda dos brasileiros, inclusive pelo fato de que o meu emprego e a minha renda dependem deles. Há alguns economistas que, depois de trabalhar no Banco Central do Brasil, ganham muito dinheiro no mercado financeiro e acham que são Deus. Eu sou mais modesto, considero-me apenas a reencarnação de Keynes. Ele morreu e ficou olhando para escolher como voltar e quando, cinco semanas depois, eu nasci, ele me viu e me deu o privilégio de ser o escolhido para abrigar seu espírito.

Falando sério, o bolsa família está dando, em média, 200 pila por ano para cada Severino porque ele não trabalha. Aí ele gasta, e você pode imaginar que ele é um vagabundo que gasta tudo em pinga no Bar Biboca, cujo slogan é "Chove lá fora, aqui dentro só pinga". Não importa como o Severino gaste no Brasil, ele passa duas notas de 100 pila para alguéns, o Raimundo dono do Biboca, por exemplo. Aí o Raimundo gasta o dinheiro pagando um salarinho de miséria para um ajudante, o fornecedor da branquinha, o vendedor de mandioca, etc. Em seguida essas pessoas gastam comprando alguma coisa de alguéns que, como eles e diferente do Severino, trabalharam para produzir e ganhar dinheiro. O dinheiro vai assim circulando pela sociedade, passando algumas vezes por pessoas que não gastam tudo e poupam um pouquinho. Como alguns poupam e tiram o dinheiro do Severino de circulação, um dia os 200 pila viram tudo poupança e param de garantir emprego para mais alguns brasileiros. Mas, enquanto circulou, aquelas duas notas de 100 criaram uma produção no valor de 300 pila. Ao gastar essa renda maior, a população causa um certo aumento nos preços e os 300 viram 600 pila. 300 é a quantidade maior que as pessoas estão comprando e outros 300 são devidos à inflação. Tudo bem, afinal a gente agora tem mais dinheiro para gastar e é melhor ter dinheiro para comprar coisas mais caras do que não ter dinheiro para comprar coisas baratas. Aí o danado do governo taxa essa renda e recebe 200 de imposto e então ele tem renda para pagar o Severino. Aí ele paga o Severino, o dinheiro circula e muitos brasileiros têm emprego. É claro que o Lula faz isso para ter votos, e é claro que dá certo. Política é isso – quando agrada o eleitor o sucesso é certo. Se agradar a sociedade, melhor ainda.

Indo agora para o sul maravilha, o Banco Central do Brasil está dando, em média, 600 mil reais por ano para cada Otávio Augusto Bandeira de Melo Prado de Cerqueira Barros. Como essa doação "casualmente" não merece a atenção da imprensa, ela não tem sido objeto de espanto da sociedade. Por isso, explico. O Otávio recebe essa bolsa do Banco Central do Brasil, cujo dono é o governo federal, aquele mesmo que dá 200 pila para o Severino, porque o Otávio não trabalha, mas tem muito dinheiro que o bisavô deixou para o avô que deixou para o papai que deixou para ele. Como faz tempo que ninguém trabalha na família, ele não aprendeu o que é isso. O coitado do Otávio então empresta o dinheiro dele para o governo e depois vai lá no Banco Central receber os juros. Por que isso acontece? Porque o Banco Central esperto e os economistas autistas dizem que isso combate a inflação. Na ideologia popular, combater a inflação agrada o eleitor e dá muitos votos. Mas não agrada a sociedade. Só economista acredita que aumentando os gastos do governo, no caso gastos com juros, os preços vão cair.

Na verdade o Otávio não vai ao Banco Central e nem tem cartão bolsa-juros, ele tem computador e internet e faz todas as cansativas operações financeiras por meio de seu banco sem sair do seu modesto escritório de 12 milhões de reais na Avenida Paulista. Aí o Otávio, que sempre teve muito dinheiro, não gasta quase nada, a não ser o salário miserável da Monica, a estagiária, o motel para levar a estagiária, o broche de ouro para a estagiária, o farmacêutico que lhe entrega o Viagra, etc. Ah, também tem os gastos com a viagem a Paris, o Patek Phillip, o Mercedes, etc., e a champanhe francesa – o Otávio e a Monica não tomam pinga - mas esses não contam nessa história porque não são produzidos por brasileiros. Como, exceto a Monica e o farmacêutico, as pessoas que recebem o dinheiro do Otávio são como ele e não precisam gastar tudo que ganham, a circulação do dinheiro da bolsa-juros do Otávio gera apenas, digamos, 300 mil reais de arrecadação de impostos. O governo gasta, por meio do Banco Central, 600 mil reais e recebe apenas 300 mil de volta. Aí então a Globo diz que o Lula tem de economizar 300 mil para pagar o resto, ele tem de fazer o tal de superávit primário, que é arrancar mais impostos da classe média e não devolver o dinheiro na forma de escolas, hospitais, estradas, etc. O Lula esperto que quer votos para ele e a Dilma não faz tudo isso, ele economiza só 150 mil. O resto ele gasta com os Severinos e promove o crescimento da renda do brasileiro. Mas o Banco Central não esquenta por causa disso, ele imprime os 150 mil que faltam, paga o Otávio e esconde isso do contribuinte. E continua dizendo para a Velhinha de Taubaté que está combatendo a inflação. É claro que imprimir dinheiro não combate a inflação, mas como os economistas e os contribuintes não sabem... O cartaz que deveria ser mostrado à população que paga imposto, vê a riqueza de uns poucos crescer e fica com cada vez menos renda para gastar, menos emprego e menos escolas, hospitais, estradas, etc., poderia ser:

Espero não ter quebrado o brinquedinho de ninguém, mas o meu bolso está cansado de sofrer e eu estou cansado dos economistas que não sabem o que estão fazendo e que, de diferente dos médicos, só têm o fato de que os médicos matam no varejo.

Gerson Lima, 20 de março de 2010